DAS ORIGENS HISTÓRICAS AO INÍCIO DO POVOAMENTO

1.1 AS ORIGENS HISTÓRICAS

As origens históricas do município de Guajeru remontam ao período de exploração e povoamento do “Alto Sertão da Serra Geral da Bahia” iniciando em fins do século XVII, quando o rei de Portugal concedeu ao nobre Antônio Guedes de Brito[1], uma “sesmaria” no Alto Sertão, dando ao mesmo poder para explorar as terras a procura de ouro e de outros metais preciosos e dar início à criação de gado na região. Aliás, todas as terras do sertão baiano foram doadas a duas famílias da mais alta fidalguia portuguesa: Os Garcia D’Ávila (proprietários da Casa da Torre) e os Guedes de Brito. Ambas encarregaram-se de introduzir a pecuária na região com a criação extensiva do gado vacum[2], desse modo, a procura por pastagens fez com que o sertão fosse explorado e povoado.

As terras do “Alto sertão”, onde se localiza hoje o município de Guajeru, bem como todos os municípios vizinhos, pertenciam à propriedade da família Guedes de Brito, e, antes da chegada dos portugueses à região, os habitantes nativos eram índios de diversas tribos.

1.2 OS ANTIGOS HABITANTES DAS TERRAS DO “ALTO SERTÃO” ANTES DA CHEGADA DOS EXPLORADORES EUROPEUS

De acordo pesquisa realizada pela historiadora Maria Aparecida Silva de Sousa[3], diversas nações indígenas habitavam o sertão baiano – Mongóis, Pataxós e amborés – estes três grupos mais precisamente na região denominada Sertão da Ressaca[4]. Segundo descrição feita pelo príncipe alemão Maximiliano de Wien Neuwied, que explorara a região no início do século XIX (1817), “eram indivíduos de grande vigor físico e valentia, ferozes e astutos ofereceram forte resistência aos invasores europeus”.

Sobre os Amborés (apelidados Botocudos pelos exploradores portugueses), o príncipe Maximiliano nos deixou o seguinte relato:

A cor dos Botocudos é um bruno avermelhado, ora mais claro, ora mais escuro; há entre eles indivíduos quase perfeitamente brancos, até de faces coradas (...). Os cabelos são fortes, pretos como carvão, duros e lisos, os pelos do corpo finos e igualmente rijos; na variedade esbranquiçada os cabelos são bruno-energrecidos. Muitos raspam as sobrancelhas e a barba, enquanto outros deixam crescidos, ou apenas aparadas; as mulheres não toleram nenhum pêlo no corpo. Os dentes são-lhes bem conformados e alvos (...). [5]

Outro estudo importante sobre os Botocudos foi feito pela historiadora Edinalva Padre Aguiar. Ela diz que:

A denominação original para o grupo indígena chamado Ymboré era Aymoré (alguns documentos falam também em Amburé) o termo foi se corrompendo e chegou até nós como Ymboré. Já a designação Botocudo foi dada pelos portugueses pelo fato desses índios usarem uma espécie de botoque nas orelhas e lábios. O bodoque era um ornamento feito de madeira extraída da Barriguda, que após ser cortado no tamanho desejado era desidratado no fogo, o que fazia com que ficasse leve e branco. Depois ele era pintado com urucum e jenipapo.

[...]

Os Botocudos viviam numa imensa faixa de terra entre Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo.

[...]

Considerados bravios e muito temidos pelos colonizadores e outras tribos indígenas, os Botocudos lutaram e resistiram até o seu extermínio, pela manutenção do seu território.

Os Ymborés foram um dos últimos grupos subjugados da região...

Os portugueses acreditavam que esses índios eram canibais, mas nada há que confirme essa crença (AQUIAR, 2000 p 15-16).

Conforme relatos de Durval Vieira de Aguiar nas “Descrições Práticas da Província da Bahia”, a extensa faixa de terra que compreende atualmente os municípios de Condeúba, Guajeru e Jacaraci, bem como as regiões circunvizinhas, era habitada por tribos de Botocudos. Estes índios, valentes como eram, demoraram a permitir a entrada dos invasores na região. As povoações criadas pelos portugueses para instalação das fazendas de gado eram freqüentemente atacadas de surpresa, muitos colonizadores eram mortos e os que sobreviviam eram obrigados a fugir. Essa resistência dos Botocudos obrigou o governo português a contratar bandeirantes e organizar expedições para expulsá-los. De acordo informações prestadas por Torres[6], a região somente foi conquistada em 1805, ocasião em que o bandeirante João Gonçalves da Costa, com o apoio do mestre de campo João da Silva Guimarães, liderou poderosa expedição que massacrou os indígenas. Esse relato é confirmado por Nestor Evangelista de Carvalho na sua obra “Breve Notícia sobre o Município de Condeúba”, publicada em 1924 e por estudo feito por Francisco Zorzo (2001, p 48 a 52) que esclarece:

O desbravamento inicial do sudoeste baiano, entre o final do século XVII e início do século XVIII, deveu-se, essencialmente, ao bandeirantismo. No atual território que compreende o sudoeste, entre 1744 e 1818, o bandeirante João Gonçalves da Costa, com seu pelotão fortemente armado, enfrentou e dizimou índios de diferentes etnias, estabelecendo os primeiros núcleos de colonização do Sertão da Ressaca.

Como se pode constatar pelos relatos de estudiosos, a colonização efetiva da região em que atualmente situa-se o município de Guajeru tornou-se possível a partir de 1805, depois que os Botocudos foram expulsos pela expedição comandada por João Gonçalves da Costa.

1.3 - DE ESCRAVO FORRO A SENHOR DOS SERTÕES: A TRAJETÓRIA DO BANDEIRANTE JOÃO GONÇALVES DA COSTA.

Em meados do século XVIII, encontrava-se no norte de Minas Gerais um ex-escravo português, este após a travessia do Atlântico tornou-se chefe de Bandeiras compostas por homens brancos cuja missão era explorar parte do sertão baiano, na época denominado Sertão da Ressaca. As expedições partiam das Minas Novas e dirigiam-se a cabeceira do Rio das Contas, o que despertava o interesse dos exploradores era a possibilidade de encontrar minas de ouro nessas regiões.

Segundo a pesquisadora Isnara Pereira Ivo[7], João Gonçalves da Costa nasceu na cidade de Chaves, em Trás-os-montes, Portugal, provavelmente em 1720. Ao chegar à colônia o preto forro envolveu-se com o processo de exploração dos sertões a partir da participação em uma expedição comandada pelo mestre de campo João da Silva Guimarães, o encarregado do governo português para tal empreendimento. Em 1744, João Gonçalves da Costa recebeu da coroa portuguesa a patente de capitão-mor do Terço de Henrique Dias[8] e após a morte de João da Silva Guimarães, assumiu o comando das expedições, começou então, a sua longa caminhada pelos sertões a procura de riquezas para o reino português.

Uma correspondência citada por Ivo[9], dos governadores interinos da Bahia para o secretário da marinha e ultramar, Martinho de Mello Castro, acerca do empreendimento de exploração do sertão, dá uma noção da missão confiada a João Gonçalves da Costa:

Para este grandioso projeto que se lhe apresentou João Gonçalves da Costa, povoador do Sertão da Ressaca, homem natural de Chaves, com o valor e o espírito dos antigos paulistas e sem a sua ambição; a ele distribuiu o governador as ordens e ele foi o que teve a paciência e a constância de se meter pelas ásperas matas, serras alagadiças que pelo espaço de 80 ou mais léguas se interpõem entre as ditas vilas de beira mar e os ditos sertões da Ressaca.[10]

O bandeirante João Gonçalves da Costa foi o fundador do “Arraial da Conquista[11]”, o núcleo de povoamento que deu origem à cidade de Vitória da Conquista. A família Gonçalves da Costa tornou-se proprietária de muitas terras no Sertão da Ressaca e por mais de um século os descendentes do velho explorador mantiveram fazendas de gado nas redondezas do atual município de Vitória da Conquista, no sudoeste baiano.

1.4 A BUSCA PELO OURO LEVA AO DESBRAVAMENTO E POVOAMENTO DO SERTÃO DA RESSACA.

De acordo estudo realizado por Sousa[12], a descoberta de ouro nas cabaceiras do rio das Contas, no Alto Sertão da Bahia, assim como nas nascentes do rio Itapicuru (Jacobina), no início do século XVIII, contribuiu para que houvesse um grande deslocamento populacional para a região. No século XVII, a exploração aurífera estava concentrada nas Minas Gerais, agora, paulistas, baianos, mineiros e portugueses adentravam os sertões baianos com o sonho de glória e enriquecimento rápido e fácil.

O primeiro núcleo de povoamento do Alto sertão foi a Vila de Nossa Senhora do Livramento do Rio das Contas, a mesma surgiu em 1724; nessa ocasião, o coronel Pedro Barbosa Leal abriu uma estrada de Jacobina até Rio das Contas com o objetivo de explorar ouro nessa região. Assim, dá-se início a formação do povoado que deu origem à atual cidade de Rio de Contas, na serra das almas. As minas de ouro de Jacobina começaram a serem exploradas em 1690, com a extração de ouro no Rio das Contas a partir de 1724 um enorme contingente populacional se desloca para o local o que provocou o surgimento de muitos povoados nas regiões circunvizinhas.

O processo de ocupação e povoamento da região em torno do Rio das Contas[13] está intimamente ligado ao surgimento dos povoados que deram origem a todas as cidades que compõem hoje o sudoeste da Bahia, inclusive Guajeru. É importante frisar que o município está estrategicamente localizado numa região que fica entre o norte de Minas (onde havia as Minas Novas) e a Chapada Diamantina (onde se localizavam as minas de Jacobina e Rio de contas). No século XVIII a atual região de Guajeru era caminho de tropeiros e de aventureiros que partiam das Minas Novas em direção à Chapada Diamantina e vice-versa.

Outro povoado que surgiu no Alto sertão baiano depois da Vila de Nossa Senhora do Livramento do Rio das Contas foi o de Caetité[14] (atual cidade de Caetité). Território originalmente habitado por indígenas da linhagem jê (Tupinães e Pataxós), já no século XVII constituía-se como núcleo de catequese. Segundo relatos, nessa região havia uma antiga fazenda de gado conhecida por São Timóteo de propriedade do capitão Estevão Pinho, esse local servia de pouso para sertanistas e bandeirantes que buscavam ouro e trabalhavam no comércio de gado.

A vila de Caetité era local de passagem dos viajantes que saiam das Minas Novas e se deslocavam para o Rio das Contas fazendo uso da conhecida estrada real. O príncipe alemão Maximiliano de Wied Neuwied que viajara pelo sertão baiano em 1815 cita a Vila de Caetité do seguinte modo:

Para ir do arraial da Conquista, através do sertão da Baía, à capital da capitania, podem-se escolher vários caminhos. A estrada principal de Minas Novas e de Minas Gerais a essa cidade, passa pela Vila de “Caieté” (antiga grafia de Caetité), Vila do Rio das Contas e Vila Cachoeira de Paraguaçu. Mais próxima do arraial, onde me achava eu, há uma outra, acompanhando o curso do Rio Gavião. A ela se chega em dois dias de viagem; mas representa um rodeio. O caminho que as boiadas da zona de Conquista costumam tomar para atingir a capital é o mais curto; foi este que eu preferi, porque poucos viajantes o freqüentam, tanto mais que umas tropas acabavam de ser atacadas por salteadores, nas margens do Gavião. [15].

A Vila de Caetité surgiu e prosperou devido à procura pelo ouro na Chapada Diamantina e no Norte de Minas Gerais. Um documento antigo atesta que:

Em 5 de outubro de 1759, as terras foram incorporadas à Coroa e por Provisão do Conselho Ultramarino de 12 de julho de 1803, foi assentada a criação da Villa, que recebeu o nome de Villa Nova do Príncipe e Santana de Caitaté. A criação da vila está intimamente relacionada ao progresso da freguesia que gerou necessidades de operacionalização local das demandas políticas e jurídicas. Entretanto, somente a 5 de abril em 1810 verificou-se sua instalação, sob a presidência do Ouvidor da Comarca de Jacobina, o Desembargador Antônio Gabriel Henrique Pessoa.[16]

O povoado foi formado a partir de um aglomerado de casas que se ergueram próximo à capela de Santa Ana construída por volta de 1740. Essa capela permaneceu filiada à igreja da Vila de Nossa Senhora do Livramento de Nossa Senhora do Rio das Contas até 1754, quando o 8º arcebispo da província da Bahia, D. José Botelho de Matos, assinou decreto transformando a capela de Santa Ana em freguesia (paróquia). No ano de 1801, os moradores do local fizeram uma petição ao governo português pedindo a elevação do povoado a categoria de vila, o pedido foi atendido em 1803, porém, a instalação da vila somente foi feita em 1810; nesse ano, o povoado foi desmembrado da vila de Nossa Senhora do Livramento do Rio das Contas e promovido a vila com o pomposo nome de Escola Normal Vila Nova do Príncipe e Santana de Caetité. Desse modo, as terras que hoje compõe o município de Guajeru que até então faziam parte da vila de Rio das Contas passaram a fazer parte agora da vila de Caetité. Nessa ocasião, o povoado já contava com o Pelourinho da praça da matriz, o prédio da cadeia e a Casa da Câmara.

O mapa do Estado da Bahia de 1860 indica que o domínio territorial da vila de Caetité estendia-se pelas seguintes regiões: A oeste, limitava-se com Urubu; a leste, com Barra de Rio de Contas, Ilhéus e Belmonte; a norte, com Minas de Rio de Contas e ao sul com o Estado de Minas Gerais. Desse imenso território surgiram 44 cidades, dentre elas, Guajeru. Em 12 de Outubro de 1867, a vila foi elevada à categoria de cidade por decreto lei nº 995; tornou-se comarca em 1855 desmembrando-se da jurisdição de Rio de Contas através da lei provincial nº 518 de 18 de Abril do citado ano.

A Vila Nova do Príncipe e Santana de Caetité desenvolveu-se a partir da construção da capela de Santa Ana (ou Sant’Ana) por volta de 1740, ao seu redor foram sendo construídas as casas que deram origem a atual cidade. Conforme descrição de Celestino[17] citada por André Koehne, a capela foi construída de barro e madeira, sendo o seu interior ornado de bonitas pinturas feitas pelo artista alemão Gottschalk. Em 1836, em conseqüência de fortes chuvas, o antigo campanário desabou, sendo reconstruído posteriormente. Finalmente, em 1913, por ocasião da criação da Diocese, o primeiro bispo D. Manoel Raimundo de Mello liderou ampla reforma que transformou a capela na atual catedral.

Com o fim da exploração aurífera, o estabelecimento de fazendas de gado foi um dos principais fatores que contribuiu para a fixação do colonizador nas terras do “Alto Sertão” baiano. Basílio de Magalhães[18] afirma: “muitos dos nômades e bravios caçadores das pedras e metais preciosos se transformaram em sedentários e pacíficos criadores de gado”. Este autor salienta que foi o ouro o responsável pelas grandes correntes migratórias que permitiram o surgimento de inúmeras povoações no sertão, porém, a pecuária pós-mineração foi a responsável pela permanência do colono na terra. Exemplo disso ocorreu com o português Miguel Lourenço, que após trabalhar na exploração de ouro no Rio das Contas tornou-se proprietário da fazenda “Brejo seco”, o núcleo de povoamento que deu origem a Bom Jesus dos Meiras[19], atual cidade de Brumado. De acordo Santos Filho[20], Lourenço enriquecera como proprietário de gado e tornou-se modelo para muitos outros exploradores que permaneceram no sertão.

O povoado de Bom Jesus dos Meiras surgiu a partir de explorações realizadas na região pelo capitão Francisco de Souza Meira em fins do século XVIII, há relatos de que a expedição comandada por este tenha travado batalhas com índios que habitavam a região, os nativos foram dizimados à margem do Rio do Antônio[21], e, depois deste episódio, um povoado foi formado no local. Por iniciativa de um antigo habitante da povoação, Antônio Pinheiro Pinto foi construída a capela do Bom Jesus, o primeiro vigário foi o padre José Mariana Meira Rocha; ao redor da capela foram sendo construídas casas que deram origem a atual cidade. O povoado de Bom Jesus dos Meiras pertencia a Vila de Rio de Contas, mas com a criação da vila de Caetité em 1810 o mesmo mudou de domínio. Tornou-se distrito em 1869 através da lei nº 1.091 de 9 de Junho, assinada pelo vice-presidente da província da Bahia Antônio Ledeslau Rocha. Em 1877, por lei provincial nº 1.756 de autoria do deputado Marcolino Moura, ocorreu o desmembramento de Caetité e elevação à categoria de vila, o líder político da emancipação política foi o coronel Exupério Pinheiro Canguçu.

A mudança do nome Bom Jesus dos Meiras para Brumado ocorreu na década de 30, na era Vargas, por ocasião da administração do interventor padre José Dias Ribeiro da Costa. O decreto lei estadual nº 7.479 de 8 de Junho de 1931 ordenou que a partir daquela data o município deveria se chamar Brumado, a mudança de nome deve ser entendida dentro do contexto da política empreendida pelo governo de Getúlio Vargas, que era de apagar todos os vestígios deixados pelo coronelismo.

No que se refere ao significado do nome Brumado, há várias explicações, vamos a elas: O estudioso Teodoro Sampaio diz que o nome é de origem tupi – Itimbopira (Y – timbó, pyra) que significa enevoada, coberto de bruma. O padre José Dias, governante municipal no período da mudança, dizia que o nome se originou da Serra Geral e da Chapada Diamantina, onde a noite acontece cerração e o amanhecer é coberto por brumas que chega até a cidade. Outra explicação é que o termo derivou-se de bromo, mineral utilizando pelos mineradores na busca pelo ouro nos rios das redondezas. Segundo o dicionarista Bluteau, a palavra Bromado (depois a ortografia alterou-se para Brumado) vem do castelhano “broma”, o escritor mineiro Nelson de Serra explica que “é o que virou Ogó, por ter sumido da mina, córrego ou rio”. Além da cidade o termo também serviu para batizar um dos rios que atravessa a região.

1.5 O SURGIMENTO DO POVOADO DE SANTO ANTÔNIO DA BARRA (ATUAL MUNICÍPIO DE CONDEÚBA)

Os primeiros vestígios de povoamento da região de Santo Antônio da Barra são da primeira metade do século XVIII. Conforme descrição feita por Tranquilino Torres em sua obra “Memória Descritiva do Município de Condeúba”, habitantes de uma região conhecida por nome Serra Talhada ergueram uma capela com a denominação de Santo Antônio da Barra do Sítio de Condeúba[22]; consta que próximo ao local onde a igreja foi edificada existia uma extensa fazenda de gado com sede à margem direita do Rio Gavião. O historiador Erivaldo Fagundes Neves em sua pesquisa sobre “Sucessão Dominial e Escravidão na Pecuária do Rio das Rãs” confirma a existência dessa fazenda e cita que o seu proprietário era o capitão Francisco Xavier da Costa, nessa fazenda era feita à criação de gado vacum e o uso de trabalho escravo.

Documentos existentes na paróquia de Condeúba atestam que a capela foi abençoada a 30 de Junho de 1745 pelo padre visitador geral João de Vasconcelos Pereira, sendo que a mesma tornou-se filial da freguesia (paróquia) de Nossa Senhora do Rio Pardo (norte de Minas Gerais). Alguns anos depois essa pequena capela foi demolida e a cerca de vinte metros deu-se início a construção de novo templo, agora suntuoso, o que exigiu muita mão de obra. A construção teve início possivelmente em 1765 e seu término somente ocorreu por volta de 1783 quando o padre visitador geral José Nunes Cabral Castelo Branco celebrou missa festiva a 10 de Junho inaugurando a igreja que se tornou a matriz e existe até os dias atuais.

O núcleo de povoamento que se transformou na cidade de Condeúba[23] surgiu a partir da construção da igreja, ao redor da mesma foram surgindo construções que deram origem ao povoado. Os habitantes do local eram vítimas constantes dos ataques dos índios Botocudos que viviam embrenhados na caatinga. Em 1805, os nativos foram definitivamente dizimados da região pela expedição comandada pelo bandeirante João Gonçalves da Costa, a partir deste fato o povoado prosperou-se bastante e a 11 de Junho de 1860 pela lei provincial 809 desmembrou-se de Caetité e foi elevado a categoria de vila, a instalação da mesma, entretanto, somente ocorreu em 1861. A partir dessa data, as terras do atual município de Guajeru que pertenciam à vila de Caetité passaram para o domínio da vila de Santo Antônio da Barra. padre Castelo Branco a benzeu a 10 de Junho u mida e no1745 pelo padre visitador geral Jo

1.6 OS PRIMEIROS VESTIGIOS DE POVOAMENTO DA REGIÃO DO ATUAL MUNICÍPIO DE GUAJERU

O povoamento da região do atual município de Guajeru está diretamente ligado à exploração das minas de Rio de Contas iniciada em meados do século XVIII. Com a descoberta de ouro na Chapada Diamantina um enorme fluxo populacional deslocou-se da região das Minas Novas (norte de Minas Gerais) e de Goiás para o Alto Sertão baiano, muitas pessoas que vieram a procura de riqueza fixaram morada e permaneceram na região o que deu origem a fazendas e povoados. Além disso, a região do atual município de Guajeru no século XVIII era caminho de passagem de viajantes e tropeiros que se deslocavam das Minas Novas, norte de Minas Gerais, para a região de Rio de Contas.

O povoado de Santa Rosa provavelmente se formou no início do século XIX, documentos atestam que este já existia quando o povoado de Santo Antônio da Barra foi elevado a categoria de vila em 1860; os primeiros moradores fixaram no local quando a região ainda pertencia à vila de Caetité. Os arquivos do Cartório de Registro Civil de Guajeru atestam que desde as primeiras décadas do século XIX havia várias famílias morando em fazendas que atualmente fazem parte do município, há registros de nascimento, de óbitos e de propriedades agrícolas pertencentes a elas. As povoações mais antigas foram erguidas em áreas que atualmente compreende a zona rural, dentre essas merece destaque Curraes Velhos[24], o lugarejo é citado nos documentos mais antigos e segundo consta, na segunda metade do século XIX já era um próspero povoado.

Pela resolução nº 1.411 de 7 de Maio de 1874 do Conselho Provincial foram criados mais dois distritos de paz para a Vila de Santo Antônio da Barra: Um na subdelegacia de S. Gonçalo das Lages e outro na subdelegacia dos Curraes Velhos, com a denominação de Santa Rosa e Curraes Velhos. Após a Proclamação da República, o conselho municipal de Santo Antônio da Barra assinou decreto lei nº 4 de 16 de Fevereiro de 1893 nomeando Santa Rosa como quarto distrito, com esse decreto Curraes Velho perdeu status e passou a ser simples povoado, quanto ao Arraial de Santa Rosa o mesmo foi elevado e tornou-se o único distrito de paz da região, sendo que Curraes Velhos passou a partir daquela data a estar submetido a ele. O atual município de Condeúba nessa época possuía os seguintes distritos: 1º a sede compreendendo o Candeal; 2º São João do Alípio; 3º São Filipe; 4º Santa Rosa.

Os limites do distrito de Santa Rosa foram estabelecidos por lei nº 94 de 18 de Maio de 1923 do Conselho Municipal de Condeúba, confirmada por lei estadual assinada pelo governador José Joaquim Seabra – lei nº 1.711, de 10 de Julho de 1924. São esses os limites: Do morro de São domingos, pelo convênio de limites deste município com o de Jacaraci, até a Lagoa do Morro; dali pelo convênio de limites deste município com o de Caculé até o Morro Alto, dali pelo convênio de limites ainda deste município com o de Bom Jesus dos Meiras até a casa da fazenda Sant’Ana, dali pela estrada real que passa pelo jardim até o lugar denominado “Gerema”, deste ponto pelos altos da Serra da “Gerema” até a passagem do “Riachão”, e dali rumo direto ao ponto de partida.

A povoação que deu origem a atual cidade de Guajeru se formou a beira da estrada por onde passavam viajantes e aventureiros que partiam do norte de Minas Gerais em direção a Chapada diamantina. As primeiras edificações foram erguidas no lugar que a população atual denomina “Rua velha”. Em 1875, moradores da fazenda Posse com o apoio da família Porto, uma antiga família que residia no povoado, deram início à construção de uma capela no planalto próximo às residências. Com o tempo, várias construções foi feitas ao redor da capela e duas ruas começaram a se formar. A antiga povoação foi abandonada e um novo povoado começou a se formar ao lado da Igreja.

O estudioso Nestor Evangelista de Carvalho na obra “Breve Noticia do Município de Condeúba” afirma que a idéia de se transferir o povoado para o planalto onde está erguida a atual cidade partiu dos antigos moradores Estanislau Ferreira Porto e Jesuíno Pereira de Souza. Estes fizeram uma petição ao Conselho Municipal que nomeou uma comissão para aprovar a mudança. As primeiras casas foram construídas por Estanislau Porto, Jesuíno Pereira de Souza e Clemente Soares. A mudança do povoado teve início no final do século XIX, consta que na segunda década do século XX próximo a igreja já havia aproximadamente quarenta e duas residências de platibandas[25] e cornijas[26], um mercado público e um edifício municipal.

A primeira escola primária do distrito de Santa Rosa foi criada por lei municipal nº 2 de 16 de Dezembro de 1893 promulgada pela intendência (prefeitura) de Santo Antonio da Barra, entretanto, essa escola somente funcionou muito tempo depois devido à falta de recursos no povoado que possibilitasse a instalação da mesma.

Por volta de 1920 o distrito de Santa Rosa já alcançava razoável progresso, a cultura mais desenvolvida era o algodão e existia já no mesmo diversos estabelecimentos comerciais. Nessa época, eram juízes de paz do distrito: 1º Antonio Rodrigues de Brito, 2º João Soares Malta, 3º Juvêncio Francisco da Silva, 4º José Ferreira Porto Sobrinho. Escrivão de paz: Jesuíno Pereira de Souza e subdelegado de polícia Capm. Altino Pinheiro Cangussu.


[1] Recebeu da coroa portuguesa o título de Conde da Ponte. Foi o patriarca da ‘Casa da Ponte’, família de latifundiários do período colonial, chegou ao Brasil junto com a comitiva do primeiro governador geral Tomé de Souza, 1549.

[2] Raça bovina trazida de Cabo Verde na África para a colônia. As primeiras duzentas cabeças chegaram ao Brasil com a comitiva do governador geral Tomé de Souza. Foi a espécie escolhida pelos portugueses para criação nos sertões já que se adaptava melhor ao clima semi-árido.

[3] A Conquista do Sertão da Ressaca: Povoamento e posse da terra no interior da Bahia – Dissertação de mestrado em História apresentada à Universidade Federal do Estado de Minas Gerais – UFMG, 2001.

[4] Segundo o historiador Rui Medeiros o termo refere-se às terras compreendidas entre os rios Pardo e das Contas. Na geografia popular “funda baía de mato baixo circundada por terra”. Tranquilino Leovigildo Torres da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia afirma que a denominação vem de um antigo rio da região, o Rio Ressaca, este nascia nos gerais e corria em direção as terras do Alto Sertão.

[5] NEUWIED, Maximiliano de Wied. Viagem ao Brasil. Tradução de Edgar Sussekind de Mendonça e Flávio Pope de Figueiredo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940. p 276.

[6] TORRES, Tranquilino Leovigildo. Memória Descritiva do Município de Condeúba.Tipografia Vieira: Condeúba, 1924.

[7] IVO, Isnara Pereira. A conquista do sertão da Bahia no século XVIII: Mediação cultural e aventura de um preto forro no Império Português. Tese de doutorado em História apresentada a UFMG.

[8] A patente foi concedida pelo governador da Bahia Vasco Fernandes César de Meneses, o Conde de Sabugosa. O título foi uma referência ao negro Henrique Dias, herói da resistência aos holandeses.

[9] IVO, Isnara Pereira. Op.cit.

[10] Anais da Biblioteca Nacional. Volume XXXII Apud IVO, Isnara Pereira. Op. Cit.

[11] De acordo estudo feito pela historiadora Maria Aparecida Sousa da Silva, na região havia uma tribo de índios que ofereceu forte resistência à invasão do branco europeu, como a expulsão dos nativos foi difícil deu-se nome ao lugar de “Arraial da Conquista” e posteriormente Vitória da Conquista. .

[12] SOUSA, Maria Aparecida da Silva. A conquista do Sertão da Ressaca: Povoamento e posse da terra no interior da Bahia. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2001.

[13] A historiadora Maria Aparecida da Silva Sousa afirma que personagem importante dessa exploração foi Pedro Leolino Mariz, bandeirante responsável pelo devassamento de diversas áreas do interior da Bahia e norte de Minas. Mariz realizou incursões no Rio das Contas, Paramirim e das Rãs e ocupou o cargo de superintendente geral das minas da Bahia.

[14] Termo de origem indígena. CAA – mata ITA – pedra, ETE – grande = Mata da pedra grande. Alguns estudiosos afirmam que o termo proveio de Caetés, índios que possivelmente habitavam a região antes da chegada dos colonizadores; porém, pesquisas recentes feitas por historiadores da UNEB contestam essa hipótese. De acordo esses novos estudos não havia tribos de Caetés na região, estes habitavam Pernambuco, Alagoas e Paraíba. O termo passou a ser utilizado para designar o local porque nele havia uma mata com uma enorme pedra. Gonçalves Dias no “Dicionário da Língua Tupi” traz Caeteté – mata verdadeira, o matão. No vocabulário Tupi-guarani português de Silveira Bueno está escrito “Caetité – mato cerrado, matão floresta”.

[15] NEUWIED, Maximiliano de Wied. Op. cit. p 422.

[16] Apud CELESTINO, Pedro. Noticias Históricas e Geográficas do Município de Caetité. 1932. Disponível em: www. portalcaetite.com. br Acesso em: 07/03/2006.

[17]CELESTINO, Pedro. História da Catedral de Nossa Senhora Sant’Ana de Caetité. Disponível em: www.portalcaetite.com.br Acesso em: 09/03/20006.

[18] MAGALHÃES, B. de. Expansão geográfica do Brasil colonial. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1958.

[19] Meira – Sobrenome de antiga família que morou no povoado, descendentes do capitão Francisco Souza Meira. Bom Jesus – O padroeiro da capela erguida do povoado.

[20] SANTOS FILHO, Lycurgo. Uma comunidade rural do Brasil antigo. (Aspectos da vida patriarcal no sertão da Bahia nos séculos XVIII e XIX). São Paulo: Cia Editora Nacional, 1956.

[21] Segundo o estudioso Tranquilino L. Torres na obra “Memória Descritiva do Município de Condeúba”, mapas antigos do século XVIII indicam que o rio se chamava Santo Antônio, a denominação do Antônio proveio de assim chamar um antigo morador da margem direita do mesmo. Em época de enchentes esse morador oferecia aos viajantes recursos para atravessar; reza a lenda que era comum o grito dos viajantes: Vamos para o rio do Antônio! Devido a isso o rio passou a ter esse nome e o mesmo conserva-se até os dias atuais.

[22] De acordo estudo realizado por Theodoro Sampaio na obra “O tupi na Geografia Nacional” o termo Condeúba originou-se da forma corrompida Cundayba, a árvore do caracol ou do fruto retorcido. Nome do morro próximo ao local do povoado, também era designação de um rio que atravessava a região e de uma antiga fazenda de gado. Para o professor Frederico Edelweiss a palavra Condeúba constitui um hibridismo, derivada de Candeia (vocábulo português) e Yba > Uba = pau (vocábulo tupi), desse modo o significado é “pau de candeia”. Orlando Bordoni diz que a origem está no vocábulo “Cond – yba”: a árvore dos caracóis ou frutos retorcidos.

[23] Segundo Tranquilino Torres, a vila de Santo Antônio da Barra passou a se chamar Condeúba em 1889 por ocasião da Proclamação da República. Nessa ocasião, o Dr. Deocleciano Pires apresentou proposta ao Conselho Provincial que imediatamente acatou assinando a resolução em 28 de Junho do mesmo ano.

[24] De acordo relatos, era uma antiga povoação na região que atualmente corresponde à divisa de Guajeru com o município de Rio do Antônio.

[25] Segundo o dicionário AURELIO [Do fr. plate-bande.]S. f. 1. Arquit. Mureta de alvenaria maciça ou vazada, construída no topo das paredes externas de uma edificação, contornando-a acima da cobertura, e que se destina a proteger ou camuflar o telhado e compor ornamentalmente a fachada: & 2. Grade de ferro, ou muro, que limita um terraço, etc. 3. Bordadura de canteiros de jardim.

[26] De acordo o AURELIO [Do esp. cornija, var. de cornisa.]S. f. Arquit. 1. Ornato que assenta sobre o friso de uma obra. 2. Molduras sobrepostas que formam saliências na parte superior da parede, porta, etc.

Fonte: Guajeru Online;escrito por Jesuino Andrade

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